Blog da Engaja Brasil
O investimento social corporativo evoluiu, mas ainda falha onde mais importa.
18 de julho de 2026
Nos últimos dias, foi lançado um novo “Guia de Investimento Social Privado para os mercados financeiro, de seguros e de capitais”, construído por importantes instituições do mercado financeiro, como Febraban, Anbima, B3 e CNseg. O material reforça algo positivo: o investimento social corporativo evoluiu. Impulsionado pela agenda ESG, deixou de ser uma prática periférica e […]Por Cristiane Almeida, fundadora e CEO da Engaja Brasil
Nos últimos dias, foi lançado um novo “Guia de Investimento Social Privado para os mercados financeiro, de seguros e de capitais”, construído por importantes instituições do mercado financeiro, como Febraban, Anbima, B3 e CNseg.
O material reforça algo positivo: o investimento social corporativo evoluiu.
Impulsionado pela agenda ESG, deixou de ser uma prática periférica e passou a ocupar espaço nas decisões estratégicas das empresas — contribuindo para geração de valor, fortalecimento da reputação e gestão de riscos.
Esse movimento não acontece por acaso.
A pressão da sociedade sobre o papel das empresas também evoluiu.
A pesquisa Edelman Trust Barometer 2023 mostrou que 78% dos brasileiros consideram o impacto social gerado por uma empresa como fator decisivo na escolha de um emprego.
Outro dado relevante vem da Pesquisa Doação Brasil 2022, que indica que 92% dos brasileiros já consideram as empresas corresponsáveis pela solução dos problemas sociais do país.
Ou seja: o investimento social deixou de ser uma agenda opcional e passou a ser parte da expectativa da sociedade
Filtrar em vez de fortalecer
Mas, ao mesmo tempo em que o modelo evolui, ele também revela um limite.
O próprio guia estrutura o investimento social a partir de um caminho claro:
- definir foco
- compreender o problema
- escolher organizações
- realizar due diligence
- monitorar resultados
Essa lógica representa um avanço.
Mas ela ainda está centrada em uma lógica: avaliar para excluir — e não para desenvolver.
Selecionam-se organizações consideradas “aptas”.
Mitigam-se riscos da empresa.
Acompanham-se resultados.
Mas é preciso fazer uma pergunta: esse modelo, por si só, é capaz de gerar valor consistente e fortalecer a reputação das empresas no longo prazo?
Tudo isso é necessário.
Mas não é suficiente.
A incoerência estrutural do modelo
Ao longo dos desta série, um ponto tem se mostrado central:
A due diligence é importante — mas ela olha para o passado.
Ela ajuda a identificar problemas já conhecidos, mas não garante que a organização terá capacidade de sustentar boas práticas ao longo do tempo.
A sustentação do impacto social – que depende de estruturas sólidas, sustentabilidade financeiramente e capacidade de adaptação – está associada a outro fator:
👉 uma governança forte e eficaz.
É a governança que sustenta a qualidade das decisões, a transparência e a consistência operacional.
É ela que reduz riscos futuros — inclusive reputacionais.
E é justamente aqui que surge uma incoerência estrutural.
Um modelo desenhado para projetos — não para instituições
Historicamente, o terceiro setor no Brasil foi estruturado para ser financiado por projetos.
Seja por investimento social privado, recursos públicos ou incentivos fiscais, o padrão predominante sempre foi:
- recursos vinculados à execução de atividades específicas
- com pouca ou nenhuma alocação para fortalecimento institucional
Ou seja, financia-se o que a organização faz, mas não se financia a capacidade da organização de sustentar o que faz.
Esse ponto explica um dilema que já vem sendo colocado nessa série:
- Espera-se impacto, transparência e profissionalismo, mas raramente se financia a estrutura que torna isso possível
Na prática, isso gera um desalinhamento.
As empresas evoluem em suas exigências:
- mais controle
- mais monitoramento
- mais prestação de contas
- mais previsibilidade
Mas grande parte das organizações ainda opera com limitações estruturais para sustentar esse nível de maturidade.
O próprio Guia de Investimento Social Privadoreconhece, ainda que de forma sutil, as limitações estruturais de muitas organizações apoiadas — o que reforça que não estamos diante de exceções, mas de uma característica predominante do setor.
Mas essa constatação ainda não se traduz, necessariamente, em uma mudança de modelo no investimento social privado.
E o modelo continua priorizando: selecionar organizações “prontas” em vez de desenvolver capacidade institucional das Organizações da Sociedade Civil.
Será que o Brasil possui OSCs “prontas” suficientes para atender à demanda do investimento social corporativo — ou operamos em um modelo que não permite que elas se tornem prontas?
A realidade do terceiro setor no Brasil
Essa incoerência se torna ainda mais evidente quando olhamos para a dimensão do terceiro setor no Brasil.
Hoje, o país conta com mais de 600 mil organizações da sociedade civil ativas, distribuídas por praticamente todo o território nacional.
Os dados mostram um setor amplo, diverso e altamente capilarizado — presente em quase todos os municípios e atuando diretamente na implementação de soluções sociais, muitas vezes onde o Estado e o mercado não chegam.
Mas há um ponto central que precisa ser considerado: a grande maioria dessas organizações é de pequeno porte e muitas operam com estruturas reduzidas e forte dependência de trabalho voluntário.
Ou seja: estamos falando de um setor essencial para a execução da agenda social, mas que, em grande parte, ainda não dispõe das condições estruturais necessárias para sustentar o nível de exigência que vem sendo imposto
Um sinal maior: o desafio da Agenda 2030
Essa discussão ganha ainda mais relevância quando olhamos para um compromisso maior assumido pelo Brasil:
a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Os dados mais recentes mostram que grande parte dos ODS no país apresenta:
- progresso insuficiente
- estagnação
- ou até retrocesso
Inclusive em um ponto central: o ODS 17, que trata justamente de parcerias e meios de implementação
Isso não é um detalhe.
É um sinal de que o desafio não está apenas na definição das metas.
Está na capacidade de executá-las.
E essa capacidade passa, necessariamente, pelas organizações que estão na ponta.
Mas isso é tema para uma análise mais profunda.
Sobre a Engaja Brasil:
É nesse contexto que surge a Engaja Brasil, com o propósito de promover a governança no terceiro setor, gerar confiança e impulsionar o investimento social para transformar vidas e comunidades, contribuindo para a construção de um futuro melhor para todos.
